domingo, 5 de junho de 2011

António Coutinho, diretor do Instituto Gulbenkian de Ciencia

Este blogue não é apreciador das rubricas de publicitação de casos pessoais de sucesso.
Porque são normalmente apresentadas pessoas excecionais que deveriam ser imitadas pelas pessoas comuns ou, na impossibilidade, simplesmente admiradas.
Ora, do que a luta pelo bem estar das sociedades precisa é de pessoas comuns e não de pessoas excecionais.
Além de que os rituais mais ou menos religiosos de admiração e submissão a ideais correspondem a estadios primitivos na evolução humana.
E também porque as pessoas excecionais são pessoas como as outras, em que uma ou outra caracteristica ocupa os lugares extremos na curva de distribuição, e que estão sujeitas às curvas de amostragem (já vou repetir este termo) , pelo que entre os casos de sucesso que os meios de comunicação social apresentam se encontram exemplos de comportamentos deficientes ou até tendencialmente criminosos (Einstein por exemplo, tinha uma dificuldade inultrapassável em lidar com o filho deficiente; os casos de sucesso cujo valor patrimonial aumenta repentinamente têm uma dificuldade inultrapassável em explicar o que um comum mortal deveria ter feito para ganhar o mesmo).

Mas o que deixo dito não impede que aplauda alguns exemplos, como o de António Coutinho, médico primeiro e depois investigador e especialista de imunologia, diretor do Instituto Gulbenkian de Ciencia, em entrevista no programa Quinta Essencia, na Antena 2   (podem ouvir a entrevista completa, se tiverem paciencia, mas insisto que vale a pena ter paciencia para a ouvir, em
http://tv1.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=1152&e_id=&c_id=1&dif=radio  ).

Claro que cada ouvinte dará mais relevo ao que é mais sensível.
a mim por exemplo, chamou-me a atenção a afirmação de que a industria da saude já ultrapassou, nos USA, a industria da defesa.
Para Antonio Coutinho isto é abominável, porque ele, quando médico, recusava pagamentos exteriores ao seu ordenado (curioso, o inventor da vacina contra a poliomielite era o que fazia, tambem, nunca quis direitos de autor; e, já que António Coutinho se recusou a embarcar para a guerra colonial, o escriba humilde deste blogue recorda com saudade uma ida a uma habitação pobre numa ilha do Porto, quando cumpria o serviço militar durante a guerra colonial, para comprovar in loco as condições de vida da família a cargo do jovem que pretendia ser dispensado da mobilização para as colónias por ser indispensável a essa família; eram os chamados processos de inquérito de amparo, a que sistematicamente eu dava parecer de indispensável para o sustento da família, embora nalguns casos fosse evidente o oportunismo do requerente; mas como se tratava de uma guerra colonial, entendia a consciencia do humilde escriba de declarar sistematicamente que o jovem não podia ir para a guerra na terra dos outros porque a sua presença era indispensável na sua terra; à saida, a senhora quis-me dar uma nota de vinte escudos... como diz António Coutinho, "estas coisas não se devem fazer por dinheiro").

Eis então o que o que diz António Coutinho, não um humilde escriba de blogues, mas o diretor do Instituto Gulbenkian de Ciencia, me permite dizer:

A ideia do interesse egoísta como motor económico pode ser muito interessante nas sebentas das universidades dos economistas, mas é um monstro que derrota a dignidade dos profissionais e o bem estar das comunidades e é uma mentira que ilude os eleitores.
Pouco se pode fazer, dado o poder dos grupos económicos ligados à saúde e ao armamento, mas é possível manifestar a discordancia e não participar.
Lamento contrariar os adamsmithistas, mas já há muitas pessoas a pensar assim, para alem do humilde escriba.

Outra ideia curiosa de António Coutinho (terá lido A Sabedoria das Multidões?) é a de que a democracia deve evoluir adaptando os seus formalismos às descobertas cientificas.
Assim, deveria ser reformulado o papel dos partidos, centrando-os na ação formativa, sem prejuizo da sua liberdade ideológica, evidentemente, mas reservando a representação dos cidadãos no Parlamento a técnicas de amostragem (amplamente conhecidas da estatística, da sociologia, das    metodologias das sondagens).
Isso permitiria uma mais perfeita representação da vontade e do sentir da população, e seria um desenvolvimento do que se faz já hoje com os jurados.
É isso, não é só o humilde escriba que diz que a democracia deve ser direta.
Porque, com o tempo, aconteceu aos partidos o que acontece aos tecidos celulares, desenvolveram células cancerosas que impedem o correto funcionamento dos tecidos (imagem de António Coutinho que o humilde escriba subscreve).
Ora, sabe-se que existem técnicas para combater estas patologias.
Pode ser  que, sem cair nos erros e desvios pitagóricos, se consiga assistir a uma evolução benigna nesta questão (tentando formular a questão, como organizar as comunidades para que o bem estar expresso no coeficiente de Gini das desigualdades, progressivamente melhore?).

Finalmente, outra observação de António Coutinho; quando os princípios estão corretos, as regras estão a mais.
Passe a imodéstia, desde há muito que o humilde escriba subscreve a ideia: não vale a pena fazer códigos de contratação pública muito perfeitos quando a corrupção se combate na escola e com profissionais honestos (bom, já agora, com sistemas de controle mutuo de processos).
Não vale a pena gastarmos dinheiro e tempo de profissionais com sistemas informáticos majestáticos e centralizados de processamento de informação que está disponível, incluindo as causas e as circunstancias das anomalias, nos registos dos profissionais da linha da frente.

Salvo melhor opinião, claro e sempre.

2 comentários:

  1. Olá, com o link acima não vou lá. E gostaria muito de ouvir uma vez mais este programa. No site da Antena 2 também não encontrei... acha que pode me ajudar? Obrigada.

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  2. Tem razão, o programa de 3JUN2011 já não está acessível no arquivo da Antena2/Quintaessencia, apesar dos icones das edições lá estarem. O ultimo que consegui apanhar era de agosto. Talvez lhe interesse as entrevistas de Antonio Coutinho em que fala da prioridade dos principios sobre as regras, da autonomia versus estrutura hierárquica e da ineficiência de fusões centralizadoras em:
    http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/comciencia/?k=1-parte-do-Com-Ciencia-de-2011-03-16.rtp&post=31738

    http://issuu.com/igciencia/docs/expresso1604

    http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=47891&op=all

    http://viveraciencia.wordpress.com/tag/2010/

    Cumprimentos
    F.Santos e Silva

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